Contra Flávio Bolsonaro, manifestantes vão às ruas em Cidade Tiradentes
Atualizado: 12 de out.
Movimentos negros e lideranças políticas ocuparam a Avenida dos Metalúrgicos em defesa da população negra e contra a extrema-direita

Raquel Barreto
Enquanto a Avenida Paulista aguardava para receber apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para uma manifestação marcada às 11h deste domingo (11), moradores de diferentes regiões de São Paulo se reuniam em Cidade Tiradentes para a Marcha por Direitos Civis e pela Vida do Povo Negro.
Convocado pelos coletivos Uneafro Brasil, Unegro (União de Negros e Negras pela Igualdade) e Coalizão Negra por Direitos, o ato foi realizado em defesa dos direitos da população negra e periférica — especialmente a do extremo da Zona Leste.
A concentração aconteceu na Praça do 65, às 10h, e reuniu lideranças políticas, militantes, representantes evangélicos e de religiões de matriz africana, professores e estudantes, que seguiram em cortejo pela Avenida dos Metalúrgicos, carregando bandeiras em apoio à Lula e cartazes de protesto contra seu adversário Flávio Bolsonaro (PL).
Diálogo com a população
Antes do começo do ato, políticos e lideranças falaram sobre ampliar o diálogo com a população periférica na disputa pelo segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro.
O historiador e professor Douglas Belchior, co-fundador da Uneafro, defendeu “fazer campanha em cada canto desse país, em todas as quebradas, sem parar” para reverter a abstenção entre os eleitores, já que 33,4 milhões de pessoas deixaram de ir às urnas no primeiro turno, gerando uma abstenção de 21,08%, a maior registrada desde 1998, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Para mudar esse cenário, a estratégia adotada pelos movimentos inclui conversar diretamente com o eleitor que está indeciso ou que não foi votar no primeiro turno.
“Nós precisamos conversar com as pessoas. ‘Você não foi [votar] no primeiro turno? Vamos no segundo’", diz a deputada federal Juliana Cardoso (PT). Durante a concentração, ela orientou os apoiadores a oferecerem companhia para os idosos que desejam votar, mas não têm condições de ir sozinhos, além de ajudarem os eleitores a confirmar seus locais de votação pelo aplicativo e-Título, após mudanças registradas em diferentes municípios.
“Agora a gente precisa, quando conversar com as pessoas, estar com o aplicativo e perguntar: ‘Você sabe onde você vota? Quer que a gente faça uma pesquisa para você ir no lugar direitinho?’ Isso também vai fazer parte da nossa organização”, completa a deputada.
Resistência nas ruas
O clima durante todo o ato foi de união e protesto. Lideranças religiosas de matriz africana puxaram o cortejo cantando cantigas na língua Iorubá. Enquanto isso, os manifestantes gritavam pelo fim da escala 6x1.

“Trabalhador, pega a visão: a 6x1 só é boa pro patrão!”, cantaram ao passar por um comércio com funcionários na porta e em pontos de ônibus cheios. Nesses locais, uma pessoa passava entregando folhetos informativos com críticas ao candidato do PL e adesivos do presidente Lula.
Pessoas também se amontoavam nas calçadas para ver a passagem da mobilização. Alguns pedestres faziam o ‘L’ e motoristas buzinavam em apoio aos manifestantes.
Fim do genocídio negro
Ainda na concentração, o vereador Emerson Osasco (PCdoB), discursou contra a atuação das big techs nas eleições. Ele acusou empresas como a Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp, de estarem “diminuindo a entrega” dos conteúdos de esquerda.
“Toda publicação do presidente Lula ou de alguém que está lutando para que o presidente Lula vença, a gente vai curtir, vai comentar, vai salvar, vai compartilhar”.
Ainda em seu discurso, Emerson manifestou preocupação com os impactos que um eventual governo de Flávio pode trazer para a letalidade policial contra jovens negros nas favelas e periferias.
“A gente que está na periferia vai ser maior atingido se esse verme [Flávio Bolsonaro] entrar, porque vai tirar as câmeras dos policiais, vai voltar a matança nas periferias, que já é grande, mas vai ser descomunal”.

Apoio evangélico a Lula
Além de integrantes de religiões de matriz africana, a marcha contou ainda com a participação da coordenadora do Movimento Negro Evangélico, Juliana Santos.
Em seu discurso, ela se posicionou contra Flávio Bolsonaro e lembrou as leis aprovadas durante o governo Lula voltadas a beneficiar e reconhecer a comunidade evangélica do país.
“Vocês [evangélicos] só podem ir para a Marcha para Jesus porque foi o presidente Lula que sancionou a lei do Dia Nacional da Marcha para Jesus, o Dia do Pastor, o Dia da Pastora, foi Lula que sancionou”.
Juliana também encorajou as periferias a ocuparem os espaços de decisão: “Nós não queremos ser lembrados somente em ano de eleição. Nós queremos ser lembrados todos os dias. Nós não estamos aqui só para morrer. Nós não estamos aqui só para trabalhar. Nós queremos viver e nós queremos estar no Congresso, nós queremos estar na política”, enfatiza ela.
Interferência da PM
O cortejo seguiu pela Avenida dos Metalúrgicos até o Terminal de Cidade Tiradentes. A Polícia Militar acompanhou o trajeto.
Ao final da marcha, policiais abordaram os manifestantes. Até o momento que a reportagem esteve no local, cerca de oito viaturas e dezenas de policiais estavam nas proximidades.
A mobilização terminou de forma pacífica por volta das 13h e alguns manifestantes deixaram a região, enquanto outros permaneceram no entorno.


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